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Oswaldo Montenegro

Ficha Técnica:

Produção independente.
Lançado somente em vinil.
Fora de catálogo.
Produção e gravação: Frank Justo Acker
Capa: Sérgio Feitosa
Arranjos: Oswaldo Montenegro
Gravado na Aliança Francesa da Tijuca, RJ
 

Trilhas (1977)

01.Quantas Vitórias (Oswaldo Montenegro)

Quantas vitórias cantem meus versos
Quantas na mesa ouviram cantar
Nossa bandeira empunha o soneto
Que é de um poeta sem lar.

Carro de boi cantando a tarde fria
Meu caminho percorreu
Negra mão tangendo na viola
Minha emoção mineira
Serenata, minha estrela
São vitórias que guardei

Velho piano e o som da velha casa
Goiabeira no quintal
A mãe preta ralha com o menino:
"Já sujou roupa lavada"
E a sujeira reclamada
É a vitória que guardei

Meu olhar ardendo à meia-noite
Percorrendo a imensidão
Minha voz estala como açoite
Como lenha na fogueira
E vitória verdadeira é enxergar nessa escuridão
 

02.Tá Certo (Oswaldo Montenegro)

Tá certo eu dispenso e renego o baralho
Te compro um vestido e um rádio de pilha
Te beijo na boca depois do trabalho
Semana que vem levo ao circo tua filha
E peço ao patrão um aumento que é justo
Na repartição já sou mais do que antigo
Na feira que vem não reclamo do custo
Podendo não penso e pensando não digo
Esqueço meu sonho e não jogo no bicho
E em vez do Maraca no fim-de-semana
Te ajudo a tirar no quintal todo o lixo
E à noite eu te levo num filme bacana
E finjo que esqueço o aluguel atrasado
E finjo que adoro quem vem me cobrar
Pra morar nessa coisa eu devia ser pago
E a goteira pingando no lar doce lar
Tá certo eu não brigo e não bebo cachaça
Te trago, mulher, a TV colorida
Francisco Cuoco sem cor não tem graça
E só vendo novela tu esquece essa vida

03.Quem Diria (Oswaldo Montenegro)

Seu moço repare ao seu lado
Se o mundo caminha correto
Mas não olhe tão descuidado
Bobeia eu logo lhe espeto
Que a vida não ta pra brinquedo
Um sopro já faz ventania
Valente é quem diz que tem medo
O bom porto não traz calmaria
Não faça pergunta sem nexo
Nem vá responder se não sabe
Que o grande segredo do sexo
É fazer caber se não cabe
E nisto resume-se a vida
No poder fazer quem não pode
No poder amar quem lhe agride
No poder matar quem lhe acode
Enquanto um fala besteira
O outro só filosofa
Enquanto um pula a fogueira
O outro rega a farofa
Enquanto um pula pra briga
O outro pula pros cantos
Enquanto um pede guarida
O outro prossegue aos trancos
Enquanto um sobe no muro
O outro apela pros santos
A gente ensaia pra burro
E o povo vê Silvio Santos
Enquanto um cede à loucura
O outro cede à ganância
O que pro pobre é frescura
Pro rico é trauma de infância

04.Dance (Oswaldo Montenegro)

Dance, dance, dance, dance
Canse, canse, canse, canse que está vida já não passa
De um trailler que já começou
E o filme quase que já não nos interessa
E eu já sei enquanto não começa
Tudo que não vai acontecer
Não adianta forçar o intelecto
A escrever uma coisa genial
Pois o fantasma da tesoura
Assombra tudo que é mortal
E o remédio, o sofisma, quem sabe
É baixar o seu anseio cultural
E se tornar um literato colunista social
Nossa mente no futuro
No cimento se abrirão
Quantas coisas esquisitas
Novas formas soltas pelas ruas tortas
Nossa mente criará
A solitária ilusão
Que no futuro do futuro
O tempo não passará
Quando a vitória se desvia
Sempre volta ao seu lugar
É o que nem nos desafia
Amanhã esconde em sua toca escura
Cada coisa tem dois lados
Ver só um é ilusão
Teu salário atrasado
É o carro do patrão

05.Paço do Rosário (Oswaldo Montenegro)

Êh, beira de rio
Paço do Rosário se avista ao longe
as ruas tortas vão se desenhando pelo arraial
Êh, beira de rio
Paço do Rosário limitando a agreste
sua janela, sua velha doca de barrica e pau
Êh, água barrenta rolando sem pressa consumindo a terra
o pôr-do-sol avermelhando o Paço do Rosário
Êh, na velha igreja já são seis da tarde
o povo reza o terço
Ave Maria, Mãe do Céu, cruz credo!
quem me mata é Deus...
Êh, murmúrio lento, como prece aflita, vai descendo o rio
acompanhando o dia que se vai buscando o anoitecer
E anoitecendo, Paço do Rosário quase silencia
a velha estátua caída na praça, mais um dia
Êh, velha rameira deixa a vela acesa por Virgem Maria
Ave Maria, Mãe do Céu, cruz credo!
quem me mata é Deus...

06.Maria, a Louca (Oswaldo Montenegro)

Maria tem fogo na mente
Seu corpo na espera que o dia não passe
Que a noite não venha, pois dorme sozinha
Encolhe o seu corpo de encontro à parede
O gosto salgado de quem já chorou
Lhe rola na face, lhe causa agonia
E por ironia lhe chamam Maria...
Maria que até já foi nome da mãe do Senhor
Agora é sem nome
É mãe, seu doutor, mas nem sabe de quem
Só sabe que um dia foi linda Maria
Maria de festa, de noite de dança
De rosto rosado, vestido bonito
Maria prendada que agora é perdida
Maria que chamam de louca
Virou brincadeira da turma da rua
Soltou gargalhada, deitou na calçada
Deu grito infinito, gemido profundo
De tão contraído seu rosto se abriu
E se encheu de ternura, pois é, quem diria
De louca Maria restou a poesia
Da moça Maria restou a mulher
 

07.Monsieur Manoel (Oswaldo Montenegro e Mongol)

Monsieur Manel
Arrive en France
Monsieur Manel
Avec la dance
Mas eu me chamo Manuel e moro na praça Paris
Mas é Manel toujours
Mas eu me chamo Manuel e mudei pra Nova Iguaçu

E foi pra Nova Iguaçu e disse merci beaucoup
E foi tomar no seu copo a cachaça inteira do bar
E foi falando besteira no trilho do metrô da Central
E no meio da sua tonteira
Ele achava isso tudo normal
 

08.Abre Alas (Oswaldo Montenegro)

Abre alas, seu moleque
Que agora eu vou passar
Com a língua cuspindo fogo procurando o sol de novo
Eu acho pouco seu luar

Abre alas, seu moleque
Que eu não to chorando, não
Com o que cai desse meu olho
Não se assuste moço eu rego a flor da decisão

Não sorria, seu moleque
Teu sorriso de verão
Que é preciso ser de aço
A ver o mundo no bagaço e não estender a mão

Abre alas, seu moleque
Que na briga eu sou mais eu
Me olhando cara a cara tu vai tremer que nem vara
Depois que o vento bater
 

09.João Sem Nome (Oswaldo Montenegro/Mongol)

Quando eu vim embora
Seu beato disse faça o que o seu coração mandar
Miguel me pediu uma lembrança
E Celina um bocado de sal
Seis anos depois eu recebi notícias
Me dizendo que pai tinha ido embora
Pras terras secas de Nosso Senhor
Pra esses campos de Nossa Senhora
Tonha se casou com Antônio, meu amigo
Marcelino partiu junto com a boiada
Seu lavrador teve mais quatro filhos
Benedito fez mais vinte e seis toadas
 

10.Metade (Oswaldo Montenegro)

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade
Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo
Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço
Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é platéia
a outra metade é canção
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também
 

11.Casa Assombrada (Oswaldo Montenegro)

Velha casa assombrada, muros por se pintar
Range o porão antigo, ninguém mais chega lá
Velha Maria Louca assombrando de noite
Os moleques da vizinhança jogando bola, zombando
Êh Maria, 'cê não me pega, com a gente 'cê não sossega jamais
Dizem os mais antigos, ter sido a tal Maria
A flor quando a juventude ainda dava a ilusão
De que o tempo ainda cuidava do amor
Dizem que no quintal Maria cultiva flores
Frutas as mais cuidadas, rosas de muitas cores
Dizem, pois a ninguém quis mostrar seu tesouro
E o tempo naquela casa passou ausente dos seres humanos
Com exceção dos moleques jogando bola de pano
Mas quando Maria deixou a velha casa assombrada
Com muito espanto é que viram quintal com campo e baliza
Pra molecada brincar
 

12.Cantiga do Cego (Oswaldo Montenegro e Mongol)

Quando o dia inteiro amanhece
E depois de uma lua cheia
O assombrado cego aparece
E a viola logo ponteia
O assombrado cego Benedito
Desponta e assusta a passarada
Vingando a luz que falta aos olhos
No riso louco que propaga
Eh, mô fio
Eu te enxergo com o coração

- Bom dia cego Benedito.
- Bom dia, fio.
- Cego Benedito, eu tô pensando em ir embora pra outras terras e queria saber se tu acha   certo?
- E quê que tu qué que eu responda, fio?
-O que tu achar que é direito.
- E é direito não deixar que se erre pra que se aprenda? É direito deixar que se erre e se arrependa sem que se aconselhe? Eu não atino o que é direito, por isso não respondo.
- Mas eu quero teu conselho. Se fosse eu, o que é que tu faria?
- Perguntaria a um cego amigo o que fazer.
- E o que este cego te responderia?
- Exatamente o que acabei de responder, fio.
- Mas se tu ainda fosse eu e o cego respondesse exatamente o que acabou de responder?
- Desistia de perguntar. E ai, fio, eu pensava que realmente o que se quer saber não se pergunta. Arranca-se do seio da terra até sentir o cheiro. Se te agrada, fica. Se te espanta vá. Mas não arranque essa cabeça do ombro pensando que assim vai ver mais alto. Não arrede essa perna do tronco pensando em chegar mais cedo. E não procure distante o que já tem do teu lado.
 

13.Canção da Rameira (Oswaldo Montenegro e Mongol)

Clareira de capim queimado
Cheiro de coisa que ardeu
Resto de suor unido
Corpos abraçando o chão
Louca me mordendo a carne
Me trincando os dentes
Me roendo as forças
Me fazendo escravo
Do que eu mais possuo
O sol castigando
E eu desesperado
Te peço desculpas
Pelo corpo sujo
Pela mão barrenta
Com que te rasquei
 

Quebra Cabeça (Paulinho Soares e Marcello Silva)


Faça o jo jogo da memória
Contando toda sua história
Todos querem ouvir
Você tem muito a dizer
É importante crer
No que você sonhou um dia não importa quando
E não importa mesmo
Como você descobriu
Que o mundo é somente um
Quebra Cabeça
Quebra Cabeça
Quebra Cabeça
Siga, continue indo
Seu mundo lindo construindo
Não se desespere
Existe um mundo coerente
Com você presente
No riso puro da criança
No beijo do amante
E na procura incessante
Da verdade sua
E que ninguém lhe roubará
Não esmoreça
Não esmoreça não
Quebra Cabeça
Quebra Cabeça
 

3- Canção da Feira (Oswaldo Montenegro e Mongol)

                           Compre aqui bom e barato

Vendo coisas de valor

Teu sorriso é minha festa

Pague um riso adiantado

Dou-lhe um beijo se é bonita

E até vendo a prestação

Dou de graça uma risada

Teu sorriso é meu sustento

 

Domingo é dia de festa

A feira já começou

A morte eu vendo à vista, moço

A vida a prestação

Meu preço é justo e correto

Minha medida é de lei

Só não lhe vendo esperança, moço

Pois isso ninguém mais tem

10- Severina Cooper (It's Not Mole, Não) (AcciolyNeto)

                     Eu vou comprá na feira uma cascavé

Enchê os dedo de ané e aprendê a dançá rock
Eu vou borrá os óio todo de carvão
Amorcegá um caminhão e vou batê em Nova York
Chegando lá compro uma rôpa de cetim
Dessas que rebrilha assim que nem galinha pedrez
No fim do ano volto na grana montado
Snob e afrescalhado machucando no ingles

It´s not mole, não
Don´t have condição

 Um roli roice no estacionamento
No lugar desse jumento
Que me fez passá vexame
Prá esquecê a minha vida de miséria
Vou passá as minhas féria
Lá na praia de Miami
Com uma galega de dois metro da altura
Daquelas que tira côco sem nem precisá de vara
O punk rock tá me oferecendo a chance
Mas antes que ele se canse
Eu vô é metendo a cara

E quando eu for me apresentá na discoteque
Vou mostrá pr'esses moleque
Que matuto é que é o bão
Eu que tentei aqui na terra tantos anos
Agora o americano é que vai curtir meu som
Depois que a gente vai embora pro estrangeiro
Que se amunta no dinheiro o negócio é chalerá
Eu só volto aqui na terra pra curtir minhas estafas
Que nem diz Frank Sinatra não vou dá colher de chá

 

12- “O Artista e o Santo” (Ulysses Machado) e “Quem Diria” (Oswaldo Montenegro)

   O Artista e o Santo” (Ulysses Machado) e “Quem Diria” (Oswaldo Montenegro)

 

Tudo o que o artista fala é engraçado
O artista é um santo disfarçado
Daquilo que o santo não gosta de ser

E tudo o que artista faz é engraçado
O artista é um bichinho danado
Que o santo não gosta mais quer ser
Santo é forte, carrega nas costas
O artista carrega onde der pra carregar
Santo é forte, garante na morte
O artista de sorte garante a do santo
Santo é forte, não precisa de reza
O artista que não reza não vai lá
E não me apurrinha que o santo é capeta
O artista é porreta, eu quero virar
E se o artista rebola é engraçado
Santo não rebola que o santo é danado
Santo é diferente, santo é displicente
Santo é do pau oco, santo é do rosário
O espírito é santo, santo é necessário
E o que a santa trindade tem de eleitorado
E se o artista rebola
E tudo que o artista fala é engraçado
Santo leva sério e convence o diabo
Deus está presente na ausência do santo
Deus foi o primeiro a ser canonizado
E se o artista repete deus castiga
E se pede perdão tá perdoado
E tudo que o artista fala é engraçado
E o santo coitado faz pela metade
Que o santo é de todos o mais responsável
Pelo bom controle da natalidade
E o milagre do filho abandonado
É o mistério da santa castidade

           Quem Diria (Oswaldo Montenegro)    

Seu moço repare a seu lado
Se o mundo caminha correto
Mas não olhe tão descuidado
Bobeia eu logo lhe espeto
Que a vida não tá pra brinquedo
Um sopro já faz ventania
Valente é quem diz que tem medo
O bom porto não traz calmaria
Não faça pergunta sem nexo
Nem vá responder se não sabe
Que o grande segredo do sexo
É fazer caber se não cabe
E nisso resume-se a vida
No poder fazer quem não pode
No poder amar quem lhe agride
No poder matar quem lhe acode
Enquanto um fala besteira
O outro só filosofa
Enquanto um pula a fogueira
O outro rega a farofa
Enquanto um pula pra briga
O outro pula pros cantos
Enquanto um pede guarida
O outro prossegue aos trancos
Enquanto um sobe no muro
O outro apela pros santos
A gente ensaia pra burro
E o povo vê Sílvio Santos
Enquanto um cede à loucura
O outro cede à ganância
O que pro pobre é frescura
Pro rico é trauma de infância

Mel do Sol (Oswaldo Montenegro)

O verão chegou trazendo a voz
Da paixão que escorre mel do sol
E incendeia o nosso coração
Menino, brincando na areia
 
Que a paixão saiba cuidar de nós
Passageiros como a luz do sol
Que incendeia o nosso coração
Menino, brincando na areia
 
Madrepérola de cores vãs
No vitral insone das manhãs
Que eu vi passar enquanto o sol
Menino, brincava na areia
 
Que o verão saiba cuidar de nós
Que você beba do mel do sol
E que a sombra que o verão trará
Possa descansar seu corpo
Menino, brincando na areia
 
Madrepérola de cores vãs
No vitral insone das manhãs
Que eu vi passar enquanto o sol
Menino, brincava na areia
 
Que a paixão saiba cuidar de nós
Que você beba do mel do sol
E que a sombra que o verão trará
Possa descansar seu corpo

Menino, brincando na areia 

Todo Mundo é Lobo Por Dentro (Petulante) Oswaldo Montenegro)

 Você me disse que eu sou petulante, né?

Acho que sou sim, viu?
Como a água que desce a cachoeira
E não pergunta se pode passar
Você me disse que o meu olho é duro como faca
Acho que é sim, viu?
Como é duro o tronco da mangueira
Onde você precisa encostar
Você me disse que eu destruo sempre
A sua mais romântica ilusão
E que destruo sempre com minha palavra
O que me incomodou
Acho que é sim
Como fere e faz barulho o bicho que se machucou, viu?
Como fere e faz barulho o bicho que se machucou, viu?
 

Vamos Celebrar (Oswaldo Montenegro)

 Eu gosto de andar pela rua, bater papo, de lua e de amigo engraçado

Eu gosto do estilo do Zorro, o visual lá do morro e de abraço apertado
Eu gosto mais de bicho com asa, mais de ficar em casa e mais de tênis usado
Eu gosto do volume, do perfume, do ciúme, do desvelo e do cabelo enrolado
Eu gosto de artistas diversos, de criança de berço e do som do atchim
Eu gosto de trem fora do trilho, de andar com meu filho e da cor do marfim
Tem gente, muita gente que eu gosto e que eu quase aposto que não gosta de mim
Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar, vamos celebrar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar, vamos celebrar
 
Eu gosto de artista circense, de artista que pense e de artista voraz
Eu gosto de olhar para frente, mas de amar para sempre o que fica pra trás
Eu gosto de quem sempre acredita, a violência é maldita e já foi longe demais
Eu gosto do repique, do atabaque, do alambique, badulaque, do cachimbo da paz
Eu gosto de inventar melodia, da palavra poesia e de palavra com til
Eu gosto é de beijo na boca, de cantora bem rouca e de morar no Brasil
Eu gosto assim do canto do povo e de tudo que é novo e do que a gente já viu
Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar, vamos celebrar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar, vamos celebrar
Eu gosto de atores que choram ali por nós e namoram ali por nós na TV
Eu gosto assim de quem é eterno e de quem é moderno e de quem não quer ser
Eu gosto de varar madrugada e de quem conta piada e não consegue entender
Eu gosto da risada, gargalhada, da beleza recriada pra que eu possa rever
Eu gosto de quem quer dar ajuda e acredita que muda o que não anda legal
Eu gosto de quem grita no morro que a alegria é socorro e que miséria é fatal
Eu gosto do começo, do avesso, do tropeço, do bebum que dança no carnaval
Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar, vamos celebrar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar, vamos celebrar
 
Eu gosto é de ver coisa rara, a verdade na cara é do que gosto mais
Eu gosto porque assim vale a pena, a nossa vida é pequena e tá guardada em cristais
Eu gosto é que Deus cante em tudo e que não fique mudo, morto, em mil catedrais
Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar, vamos celebrar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar, vamos celebrar

Cristal (Oswaldo Montenegro)

Era de vidro, quase de lâmina
há de haver no espaço uma igual
Era uma lágrima
Há de ter sido um choro natural
Era uma estrela clara de lua
Gota de lume branco e de sal
Era vitrine, como é vitrine
O olho, a janela, a ruga e o cristal
Era de água, quase de espelho
Como o olhar de quem passa mal
Era de lua, sempre de enluarada impressão
Divina e normal
Era menino, muito menino

como é menino o bem contra o mal 

Lume de Estrelas (Oswaldo Montenegro / Mongol)

Toda vez que eu volto, to partindo
E no sentido exato é por saudade
Ah, coração! Taí a festa e nós
Por aí vai nossa colorida idade
Diga depressa com quantas paixões
Faz-se a canoa do amor que a gente quer
E quando eu não voltar acenda o mesmo lume
De estrelas que eu deixei no seu olhar

    

Intuição (Oswaldo Montenegro / Ulysses Machado)

Canta uma canção bonita
Falando da vida em ré maior
Canta uma canção daquela
De filosofia e mundo bem melhor
Canta uma canção que aguente essa paulada
E a gente bate o pé no chão
Canta uma canção daquela
Pula da janela, bate o pé no chão
Sem o compromisso estreito
De falar perfeito, coerente ou não
Sem o verso estilizado, o verso emocionado
Bate o pé no chão
Canta o que não silencia
É onde principia a intuição
E nasce uma canção rimada
Da voz arrancada ao nosso coração
Como sem licença, o sol rompe a barra da noite
Sem pedir perdão
Hoje quem não cantaria grita a poesia
Bate o pé no chão
E hoje quem não cantaria grita a poesia

E bate o pé no chão 

Andando Em Copacabana (Oswaldo Montenegro)

Eu tava andando em Copacabana
Assim com jeito de fim de semana
E vi alguém virando um brâmani oriental
Entrei num bar pedindo logo uma Brahma
Achei perfeita a confusão que emana dessa terra
E achei você meio sem sal
Não é que seja uma visão sacana
Mas você, menina, até hoje se ufana
De ter lido Goethe no original
Dispense a carta, mande um telegrama
Chame de orgasmo o que sentiu na cama
E vá rever Viena nesse carnaval

Eu acho leve o tal rock pesado
Acho que ser ou não se ser viado tá ultrapassado
E não me leve a mal
Eu continuo em Copacabana sem saudades suas
Acabou a grana e esse nosso amor que eu já achei bacana
Chega ao seu final
Mudei de tom pra ver se a coisa muda
Mas a melodia hoje não me ajuda
Ai meu Deus, valei
Meu São Jobim me acuda, que esse tom tá mal
E ainda que pese na tua balança
Aquela velha frase que quem corre alcança
Hoje eu vou de táxi, que correr cansa
E eu não tô legal
Eu não tô legal

Eu não tô legal 

Pavão Mysteriozo (Ednardo)

Pavão misterioso, pássaro formoso
Tudo é mistério nesse seu voar
Mas se eu corresse assim, tantos céus assim
Muita história eu tinha pra contar

Pavão misterioso nessa cauda aberta em leque
Me guarda moleque de eterno brincar
Me poupa do vexame de morrer tão moço
Muita coisa ainda quero olhar

Pavão misterioso, meu pássaro formoso
No escuro dessa noite, me ajuda a cantar
Derrama essas faíscas despeja esse trovão
Desmancha isso tudo que não é certo não

Pavão misterioso, pássaro formoso
Um conde raivoso não tarda a chegar
Não temas minha donzela, nossa sorte nessa guerra

Eles são muitos, mas não podem voar 

Amores (Oswaldo Montenegro)

Cada alegria desfaz algum nó
Não é preciso entender as paixões
Cada manhã vai te encontrar
Mesmo sem você querer
Mesmo se o sono durar
Sim, cabe ao amor te aliviar
Do que te cansa
Sai, dança no sol, solta tua voz
Que a luz te alcança
Dança! Dança!
Que o mundo vai te esquecer
Que o mundo não vai lembrar
Dança, dança
Cada surpresa desfaz o que for
Não é preciso guardar as canções
Cada intenção muda de cor
 

Cada alegria é uma voz
Que alguém vai ter que escutar
Sim, tudo é em vão, nada é em vão
Então descansa
Sim, nada demais, tudo se faz
Vira lembrança
Dança! Dança!
Que o tempo vai te levar
Que o tempo vai sem você
Dança, dança, dança

 
 
 

 

    

A Lógica da Criação (Oswaldo Montenegro)

O mérito é todo dos santos
O erro e o pecado são meus
Mas onde está nossa vontade,
Se tudo é vontade de Deus?
Apenas não sei ler direito
A lógica da criação
O que vem depois do infinito
E antes da tal explosão?
Por que o tal ser humano
Já nasce sabendo do fim?
E a morte transforma em engano
As flores do seu jardim?
Por quê que Deus cria um filho
Que morre antes do pai?
E não pega em seu braço amoroso
O corpo daquele que cai?
Se o sexo é tão proibido
Por que ele criou a paixão?
Se é ele que cria o destino
Eu não entendi a equação
Se Deus criou o desejo
Por quê que é pecado o prazer?
Nos pôs mil palavras na boca
Mas que é proibido dizer
(Ora pro Nobis, Ora pro Nobis)
Porque se existe outra vida
Não mostra pra gente de vez?
Por que nos deixa nos escuro
Se a luz ele mesmo que fez?
Por que me fez tão errado
Se dele vem a perfeição?
Sabendo, ali, quieto, calado
Que eu ia criar confusão
E a mim que sou tão descuidado
Não resta mais nada a fazer
Apenas dizer que não entendo
Meu Deus como eu amo você!