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Oswaldo Montenegro

Ficha Técnica:
Arranjos: Roberto Menescal e Oswaldo Montenegro
Violão e voz: Oswaldo Montenegro
Flauta e teclado: Madalena Salles
Guitarra: Roberto Menescal
Teclado e violão: Márcio
Baixo: Serginho
Dir. de Prod.: Roberto Menescal
Letras Brasileiras ao Vivo (1999)

Mucuripe (Fagner e Antonio Carlos Belchior)

A velas do Mucuripe vão sair para pescar
Vou levar as minhas mágoas pras águas fundas do mar
Hoje à noite namorar sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar
Calça nova de riscado, paletó de linho branco
Que até o mês passado lá no campo ‘inda era flor
Sob o meu chapéu quebrado
Um sorriso ingênuo e franco
De um rapaz novo, encantado
Com vinte anos de amor
Aquela estrela é dela
Vida, vento, vela, leva-me daqui
 

Sinal Fechado (Paulinho da Viola)

- Olá como vai?
- Eu vou indo, e você tudo bem?
- Tudo bem, eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro e você?
- Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranquilo, quem sabe?
- Quanto tempo!
- Pois é, quanto tempo!
- Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios
- Ah! Não tem de que, eu também só ando a cem.
- Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí.
- Pra semana, prometo, talvez nos vejamos, quem sabe?
- Quanto tempo!
- Pois é, quanto tempo!
- Quanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas.
- Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança.
- Por favor, telefone, eu preciso beber alguma coisa rapidamente.
- Pra semana...
- O sinal...
- ...eu procuro você.
- ...vai abrir, vai abrir.
- Prometo, não esqueço.
- Por favor, não esqueça, não esqueça.
- Adeus, adeus, adeus.
- Adeus, adeus...

 

A Lista (Oswaldo Montenegro)

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Era o melhor que havia em você
Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você
 

Vagamente (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli)

Só me lembro muito vagamente
Correndo, você vinha quando de repente
Teu sorriso que era muito branco
Me encontrou
Só me lembro que depois andamos
Mil estrelas, só nós dois contamos
E o vento soprou na manhã mil canções
Eu me lembro muito vagamente
Da tarde que morria quando de repente
Eu sozinho fiquei te esperando
E chorei
Só me lembro muito vagamente
O quanto a gente amou e foi tão de repente
Que nem lembro se foi com você que eu perdi, meu amor

 

Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda (Lamartine Babo e Francisco Mattoso)

Eu sonhei que tu estavas tão linda
Numa festa de raro esplendor
Teu vestido de baile, lembro ainda
Era branco, todo branco, meu amor
A orquestra tocou uma valsa dolente
Tomei-te aos braços, fomos dançando, ambos silentes
E os pares que rodeavam entre nós
Trocavam juras, diziam coisas à meia voz
Violinos enchiam o ar de emoções
E de ternura uma centena de corações
Pra despertar teu ciúme tentei flertar alguém
Mas  tu não flertaste ninguém
Olhavas só para mim, vitórias de amor cantei
Mas foi tudo um sonho, acordei

 

Todo Sentimento (Cristovão Bastos e Chico Buarque)

Preciso não dormir até se consumar o tempo da gente
Preciso conduzir um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente
Pretendo descobrir no último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento, e bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer, até o amor cair doente, doente
Prefiro, então, partir a tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder, te encontro com certeza
Talvez no tempo da delicadeza
Onde não diremos nada, nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado, ao lado teu
 

Maracangalha (Dorival Caymmi)

Eu vou pra Maracangalha, eu vou
Eu vou de chapéu de palha, eu vou
Eu vou de uniforme branco, eu vou
Eu vou convidar Anália, eu vou
Se a Anália não quiser ir, eu vou só
Eu vou só, eu vou só
Se Anália não quiser ir, eu vou só
Eu vou só, eu vou só, sem a Anália
Mas eu vou
 

João Valentão (Dorival Caymmi)

João Valentão é brigão, pra dar bofetão
Não presta atenção e nem pensa na vida
A todos João intimida, faz coisas que até Deus dúvida
Mas tem seus momentos na vida
É quando o sol vai quebrando
Lá pro fim do mundo, pra noite chegar
É quando se ouve mais forte o ronco das ondas na beira do mar
É quando o cansaço da lida, da vida, obriga João se sentar
É quando a morena se encolhe
E se chega pro lado querendo agradar
Se a noite é de lua a vontade
É contar mentiras é se espreguiçar
Deitar na areia da praia

Que acaba onde a vista não pode alcançar
E assim adormece esse homem
Que nunca precisa dormir pra sonhar
Porque não há sonho mais lindo
Do que sua terra não há


Três Apitos (Noel Rosa)

Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda, sem dúvida, bem zangada
Pois está interessada em fingir que não me vê
Você que atende ao apito de uma chaminé de barro
Porque não atende ao grito tão aflito da buzina do meu carro?
Você, no inverno, sem meias vai pro trabalho
Não faz fé no agasalho, nem no frio você crê
Mas você é mesmo artigo que não se imita
Quando a fábrica apita faz reclame de você
Nos meus olhos você lê como eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente impertinente que dá ordens a você
Sou do sereno, poeta muito soturno
Vou virar guarda noturno e você sabe por quê
Você só não sabe que enquanto você faz pano
Faço junto do piano esses versos pra você
Esses versos pra você, esses versos pra você
 

Pó (Beto Brasiliense)

Tu és pó e ao pó "reverteres"
Em verdade é só isso que queres
Vem do sol o que queima e as cores
Amanhã o teu pó serão flores
Quando sinto no pescoço um nó
Vem o vento e me sopra, eu sou pó
 

Meu Amigo, Meu Herói (Gilberto Gil)

Meu amigo, meu herói
Oh! Como dói saber
Que a ti também corrói a dor da solidão
Meu amado, minha luz
Descansa a tua mão cansada sobre a minha
Sobre a minha mão
A força do Universo não te deixará
O lume das estrelas te alumiará
Na casa do meu coração pequeno
No quarto do meu coração menino
No canto do meu coração espero
Agasalhar-te a ilusão
Meu amigo, meu herói
Como dói saber
Que a ti também corrói a dor da solidão
Meu amado, minha luz
Descansa a tua mão cansada sobre a minha
Sobre a minha mão
A força do Universo não te deixará
O lume das estrelas te alumiará
Na casa do meu coração pequeno
No quarto do meu coração menino
No canto do meu coração espero
Agasalhar-te a ilusão
Meu amigo, meu herói
Oh! Como dói
Oh! Como dói
Oh! Como dói
Oh! Como dói
 

Fim de Caso (Dolores Duran)

Eu desconfio
Que o nosso caso está na hora de acabar
Há um adeus em cada gesto em cada olhar
Mas nós não temos é coragem de falar
Nós já tivemos a nossa fase de carinho apaixonado
De fazer versos, de viver sempre abraçados
Naquela base de só vou se você for
Mas de repente fomos ficando cada dia mais sozinhos
Embora juntos cada qual tem seu caminho
E já não temos nem vontade de brigar
Tenho pensando, e Deus permita que eu esteja errado
Mas eu estou, estou desconfiado
Que o nosso caso ta na hora de acabar
 

Na Hora do Almoço (Belchior)

No centro da sala
Diante da mesa
No fundo do prato
Comida e tristeza.
A gente se olha,
se toca e se cala
Mas se desentende no instante em que fala
Medo, medo, medo, medo, medo, medo...
Cada um guarda mais
os seus segredos
a sua mão fechada, a sua boca aberta
o seu peito deserto
sua mão calada, fechada, selada, molhada de medo
Pai na cabeceira é hora do almoço
Minha mãe me chama é hora do almoço
Minha irmã mais nova, negra cabeleira
Minha avó reclama é hora do almoço
Eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
Deixemos de coisa, cuidemos da vida
Pois senão chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço sem ter visto a vida
Ou coisa parecida, ou coisa parecida
 

Valsinha (Vinícius de Moraes/Chico Buarque de Hollanda)

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E não deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
E aí ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado, cheirando a guardado de tanto esperar
E aí os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E aí dançaram tanta dança que a vizinhança logo despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz
 

Sem Fantasia (Chico Buarque)

Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia você não vai crescer
Vem, por favor não me evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meu apelos
Vou te envolver nos cabelos
Vem perder-te em meus braços
Pelo amor de Deus!
Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu
Ah! Eu quero te dizer
Que o instante de te ver custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar
Eu quero te contar das chuvas que apanhei
Das noites que varei no escuro a te buscar
E quero te mostrar as marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei, nas discussões com Deus
E agora que cheguei eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa dos carinhos teus
 

Eu Não Existo Sem Você (Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo, levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor só é bem grande se for  triste
Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você
Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim e eu não existo sem você
 

Letras Brasileiras (Oswaldo Montenegro)

Dez mil rubis
Mil pedras turmalinas
Cem mil cometas
Um milhão de sóis
Dez mil Joões
Mil vidas severinas
Cem mil poetas, todos eles sós
Em procissões, Natais e serpentinas
Dez mil mãos postas
Mães, irmãos, avós
A esperança é profissão e sina
Ensina laços a fingir de nós
São cem cavalos, dez luzes na crina
São luas, muitas luas e faróis
São mil perdões, que aos bons não se incrimina
Cem mil poetas, todos eles sós
Televisões em cada casa e em cima
Parece um bicho a antena
E cada voz
Parece voz que nunca desafina
Na serenata para o seu algoz
Milhões de versos, cem milhões de rimas
No mesmo mar, são dez milhões de anzóis
Pescando alma em dós, bordões e primas
Cem mil poetas, todos eles sós
 

Samba da Benção (Vinícius de Moraes e Baden Powell)

Oswaldo fala:
Uma vez Menescal encontrou Tom Jobim pescando. Aí nosso Antônio Brasileiro pediu ajuda:
Menesca, me ajuda aqui.
Menesca foi ajudar. De repente observou: Tom, tá faltando isca nos anzóis!
E Jobim respondeu: Que isso Menesca? Eu não uso isca. Já pensou, machucar os peixinhos?
Tava ali o poeta do Brasil!
Drummond escreveu que “muitos fizeram poesia, mas só Vinícius de Moraes viveu como poeta”. Então, tinha que ser com ele o fecho desse disco. Mièle falou pra gente: Ainda não inventaram final melhor do que o Samba da Benção.
Vamos terminar com Vinícius, que falou que “amar é vontade de ficar perto se longe e mais perto, se perto.”
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é melhor coisa que existe
É assim como a luz do coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba, não

Senão, é como amar uma mulher só linda. E daí? Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza. Qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade. Um molejo de amor machucado. Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e pra ser só mulher.

Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
A tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Feito essa gente que anda por aí brincando com a vida. Cuidado companheiro! A vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo, que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu e assinada embaixo: Deus. E com firma reconhecida! A vida não é brincadeira, amigo. A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Há sempre uma mulher à sua espera, com os olhos cheios de carinho e as mãos cheias de perdão.
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é grande na poesia
Ele é negro demais no coração
Eu por exemplo, fã do capitão do mato Vinícius de Moraes, poeta e diplomado o branco mais preto do Brasil, da linha direta de Xangô. Saravá! Saravá!
Sua benção, Vinícius! Tu que de tanto talento nasceste no plural. Sua benção!
Sua benção, Noel, que tens flor no nome!
A benção, Dolores, plural de mulheres!
Sua benção, Caymmis, Buarques e Tons!
Sua benção, Beto Brasiliense, Belchior!
Sua benção, Paulinho da Viola! Todos os letristas que a gente ouviu, meus amigos, meus heróis. Sua benção, Gilberto Gil! A benção a todos os poetas ausentes! Não cabia todo mundo.
Mario Quintana falou que não tem porque interpretar um poema, o poema já é uma interpretação. Poesia a gente não define. Sua benção, Quintana!
A benção, Roberto e Erasmo! Sua benção, Lamartine!
A benção, Menescal, que reuniste comigo todos esses, que botaram nas Letras Brasileiras o que a gente sentiu e nunca conseguiu dizer. Sua benção a quem aparecer! A benção! Aos que virão, a benção! A quem já foi, a benção!
Vam’bora Menesca, pescar sem isca... pescar sem isca... Sua benção!
Valeu! Valeu!