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Oswaldo Montenegro

Ficha Técnica:
Direção: Daniel Tendler
Direção de fotografia e câmera: Márcio Menezes
Montagem adicional: Bernardo Neder
Direção teatral e musical: Oswaldo Montenegro
Assistente de direção teatral: Madalena Salles
Produzido por Paulo Barreto e Daniel Tender
Arranjos: Oswaldo Montenegro
Engenheiro de som e mixagem: Alexandre Meu Rei
 
Coreografias:
Oswaldo Montenegro
Hugo Rodas
Larissa Landim
Shirlene Paixão
Sérgio Landim
Luísa Pitta
 
Textos: Oswaldo Montenegro
 
Companhia Mulungo:
Caio Miranda
Cibelle Hespanhol
Larissa Landim
Léo Pinheiro
Luísa Pitta
Renato Luciano
Rodrigo Sestrem
Shirlene Paixão
Verônica Bonfim
 
Edição das performances musicais:
Oswaldo Montenegro
Rodrigo Sestrem
Alexandre Meu Rei

 

Léo Pinheiro 
Oswaldo Montenegro e Cia Mulungo (2012)

CD 1 - 1. Tchucarramãe (“Nação Primeira") (Ulysses Machado)

Beijo na na

Beijo na nação pri

Beijo na nação primeira

Tchucarramãe nossa

 

Mãe nossa trouxe um índio novo

Numa estrela colorida

E brilhante que brilha

Mãe nossa fez de novo

I Juca Pirama gritar

Carne de branco é salgada

Mas a gente gosta

Bodoques, enxadas e flechas

Pirão de farinha

 

Mãe nossa deu apito

Agora a gente apita e grita

Cem quilômetros de terra

Crao, Xerente, Yanomami

Apinajé, Carajá

A gente corta a cabeleira

E grita e pula e canta

Mãe nossa fez da vida inteira

Um pula-e-grita-e-canta 

2- O Comedor de Calango e o Gerente da Multinacional (Mauricio Baia, Tonho

 2-      O Comedor de Calango e o Gerente da Multinacional (Mauricio Baia, Tonho Gebara e Ana Bertani)

 

Na minha infância eu comia calango vivo

Comia calango seco, comia calango lá

Na minha infância eu comia calango vivo

Comia calango seco, comia calango lá

Era buchudo que nem baiacu virado

Meu joelho era inchado de eu tanto caminhar

Mas no que a fome me batia era cegueira

Eu saía a fazer poeira

Pra caçar calango lá

Bicho ligeiro anda virado na cachorra

Corre mais do que uma porra

Era impossível de alcançar

Era preciso um bocado de inteligênça

As armadilha e a paciênça

Pra mode a gente almoçar

Matava o bicho com uma pedrada na cabeça

E pendurava ele na cerca

Pra carne poder secar

E a carne seca eu comia com macaxeira

E espantava a mosca bicheira

Que queria o meu jantar

Mas êita que é agora que eu me espalho

Que plantaram um festifude

Bem no meio do sertão

Larguei a calangada do balaio

E me juntei à fila armada

Pra fazer a refeição

Big Calango com alface, queijo, pão com gergelim

Suco de xiquexique e eu sem capital

Pois é que agora nem caçar a gente pode

Porque foi privatizado pela multinacional

Acontece que o gerente do franxaize

Que contrata funcionário

Ouviu falar do meu norrau

E hoje eu ando caçando calango tanto

De frilance pago um lanche com o salário semanal

Deus me dê grana pra eu poder casar com Ana

Me dê poupança pra eu comprá-lhe as aliança

Sucesso pra eu me adaptar ao progresso

Caçando calango tanto, caçando calango lá

Caçando calango tanto, caçando calango lá. 

3- Canção da Feira (Oswaldo Montenegro e Mongol)

                             Compre aqui bom e barato

Vendo coisas de valor
Meu produto é sua festa
Pague um riso adiantado
Dou-lhe um beijo se é bonita
Até vendo a prestação
Dou de graça uma risada
Teu sorriso é o meu sustento
 
Domingo é dia de festa
A feira já começou
A morte eu vendo à vista, moço
A vida a prestação
Meu preço é justo e correto
Minha medida é de lei
Só não lhe vendo esperança, moço
Pois isso ninguém mais tem

4- Um Índio (Caetano Veloso)

                     Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante

De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante

Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias

Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá

Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico

Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito

(Refrão)

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos, não por ser exótico 

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto   

Quando terá sido o óbvio 

5- Jaya Radha Madhava (Lui Coimbra, sobre texto dos vedas indianos)

Jaya Radha Madhava Kunja-Bihari

Jaya Radha
Jaya Radha Madhava Kunja-Bihari

 

6- Escondido no Tempo (Oswaldo Montenegro)

                    Como o legado dos maias, menina

Como o que vem da maré
Tá escondido no tempo, menina
Aquilo que a gente é
Como o segredo da cor turmalina
O fim da nação Aimoré
Tá escondido no tempo, menina
Aquilo que a gente é

O inventor da gandaia, é tudo o que eu quero ser
O rei do rabo de arraia, menina, é tudo o que quero ser
E gente da tua laia, é tudo o que eu quero ser
E esse tomara que caia, menina, é tudo o que eu quero ser

Como o segredo de um sol que ilumina
Londres e a Praça da Sé
Tá escondido no tempo, menina
Aquilo que a gente é
Como quem nasceu em Amaralina
Que traz o gingado no pé
Tá escondido no tempo, menina
Aquilo que a gente é

O defensor da mulata é tudo o que eu quero ser
O nó que nunca desata,  menina, é tudo o que eu quero ser
O Zumbi da tua mata é tudo o que eu quero ser
O percussionista de lata, menina, é tudo o que eu quero ser

Como o painel de Van Gogh e a retina
E o sangue azul da ralé
Tá escondido no tempo, menina
Aquilo que a gente é
Como quem diz que me odeia e me anima
Qual o segredo da fé?
Tá escondido no tempo, menina
Aquilo que a gente é

 

O grão-vizir da Baixada é tudo o que eu quero ser
O demolidor da fachada, menina, é tudo o que eu quero ser
O doido da madrugada é tudo o que eu quero ser
Um bicho estranho ou nada, menina, é tudo o que eu quero ser

7 - Canção do Gago

                   É como um gago que não parecia gago

Gago como a gente ria

Meio gargalhando gago

 

E era uma vitrine, os olhos da menina,

A gente ria muito no quintal

E é feitiçaria como a gente ria

Gargalhando do bem e do mal

8- Cuitelinho (folclore do Estado Mato Grosso)

                    Cheguei na beira do porto

Onde as ondas se espáia
As garça dá meia volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai, ai

 

Ai quando eu vim da minha terra
Despedi da parentaia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes bataia, ai, ai, ai

A tua saudade corta
Como aço de navaia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
Os óio se enche d'água
Que até a vista se atrapaia, ai, ai, ai

9- Gemedeira (Otacílio Batista)

                     Eu gemo no meu baião

Nesse momento profundo

Minha mãe gemeu por mim

Para botar-me no mundo

E eu não gemo por ela,

Ai ai, ui ui,

Porque sou um vagabundo.

 

Papai foi homem profundo

Se gemeu não foi aqui

Ele gemeu com mamãe

E outra pessoa, que eu vi

E do gemido dos dois,

Ai ai, ui ui,

Olha eu cantando aqui.

 

Eu para cantar nasci

Vivo gemendo também

Quando a cantoria vai

É que a gemedeira vem

E aqui na face da Terra,

Ai ai, ui ui,

Sem gemer não há ninguém.

 

Quase todo mundo tem

Um gemido que implora

Geme o sujeito casado

Às vezes fora de hora

Geme no dia que casa

Ai ai, ui ui,

                    E quando a mulher vai embora

10- Severina Cooper (It's Not Mole, Não) (AcciolyNeto)

                     Eu vou comprá na feira uma cascavé

Enchê os dedo de ané e aprendê a dançá rock
Eu vou borrá os óio todo de carvão
Amorcegá um caminhão e vou batê em Nova York
Chegando lá compro uma rôpa de cetim
Dessas que rebrilha assim que nem galinha pedrez
No fim do ano volto na grana montado
Snob e afrescalhado machucando no ingles

It´s not mole, não
Don´t have condição

 Um roli roice no estacionamento
No lugar desse jumento
Que me fez passá vexame
Prá esquecê a minha vida de miséria
Vou passá as minhas féria
Lá na praia de Miami
Com uma galega de dois metro da altura
Daquelas que tira côco sem nem precisá de vara
O punk rock tá me oferecendo a chance
Mas antes que ele se canse
Eu vô é metendo a cara

E quando eu for me apresentá na discoteque
Vou mostrá pr'esses moleque
Que matuto é que é o bão
Eu que tentei aqui na terra tantos anos
Agora o americano é que vai curtir meu som
Depois que a gente vai embora pro estrangeiro
Que se amunta no dinheiro o negócio é chalerá
Eu só volto aqui na terra pra curtir minhas estafas
Que nem diz Frank Sinatra não vou dá colher de chá

11- Pode pôr a culpa em mim (Oswaldo Montenegro)

                     E não finge que me ama

E que madeira ama cupim
Vê se me poupa desse drama
E vade retro, coisa ruim!
E se a coisa desandar
E se alguém te perguntar
Pode por a culpa em mim

 

A gente é junto e separado                         

Igual piscina e trampolim
Você fala acariocado
Me enganando que é latim
Mas se o medo do momento
É o global aquecimento
Pode por a culpa em mim

E se a esquerda no poder
Desandou teu Zepelim
E se o medo de perder
Azedou o teu quindim
E se o rock hoje é cafona
Se a mocinha hoje é matrona
Pode por a culpa em mim

Se você já descobriu
Publicado num pasquim
Que só mesmo no Brasil
Comandante faz motim
O sucesso é quase um crime
E a mentira é o que se imprime
Pode por a culpa em mim


E se a espada revoltada
Empunhar o espadachim
E se a água alucinada
Resolver beber o rim
E se o amor que a gente teve
Se atirou do céu sem rede
Pode por a culpa em mim

13- Retrato (Oswaldo Montenegro)

                    Eu grito, sou vento, poeira                                    

Sou pó, ventania

Gramado sem gente   

Covarde, valente

Soldado ou tenente  

Depende da hora  

O que eu cismo de ser

 Enfim, sou a mesma palavra   

Num outro sentido

Mero menestrel das angústias urbanas

O louco Quixote                                                                                           

Da grande cidade da realidade

                     Moinho a vencer                                                                                                                                                  

CD 2 - 1. Canção da Lavoura (Oswaldo Montenegro e Mongol)

                     Eh, sua bastante pra regar a plantação

Eh, bate a enxada como bate o coração

Amassa a terra, bate forte com a enxada

Põe semente, tira a terra

Põe sal grosso, que é pro santo ajudá

2 - Lenda da Lavadeira (Oswaldo Montenegro)

                     Lavadeira que já se benzeu

Lavadeira e seus orixás
Pé descalço, ri meio sem jeito
E diz que a vida é dura mas dá pra levar

 

Lavadeira diz que já sonhou
Com o conforto que o dinheiro dá
Mas sorri vendo seu filho forte
E diz que o que não teve ele vai conquistar

 

                   Eh lavadeira, passo lento
                   Pé descalço, volta ao seu lugar

 

3- Tua festa (Ulysses Machado)

                    Your mama say Yeah, Your papa say no!

Quem dera estar na tua festa, mama!
Houve essa música preta e me chama                          

Bophuthatswana, sorriso de fada
Tua bunda tão musculosa, lábios de almofada
Gueto de Soweto, agora um caminho
Já foi tão cruel, sujo, mau

Mas virou nosso ninho
Soninho, soninho!

Last night, I had a dream about you, I saw you in a run,
Me saw that noisy people kicking you unde the sun
Though you were me best friend, bro, me could not save your soul, bro
Me called you 'moyher fucker!', while the crowd'd began to stuck and fuck you
Your mama say Yeah, Your papa say no!
Even if you ask me for help I could not listened ya
You can get the kiss of life but you can depend on the people too, yo
They' ve cut your bals and suck your blood and than they play the tango

4- - Pra Longe do Paranoá (Oswaldo Montenegro)

                    Numa tarde quente eu fui-me embora de Brasília

Num submarino do lago Paranoá
Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro

Namorando Madalena na beira do mar

 

Qualquer dia, mãe, você vai ter uma surpresa
Vendo na TV meu peito quase arrebentar
Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro

Namorando Madalena na beira do mar

 

Quem quiser que faça o velho jogo da política
Na sifilítica maneira de pensar
Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro

Namorando Madalena na beira do mar

 

Eu tenho o coração vermelho
E o que eu canto é o espelho do que se passa por lá

5- De volta pro Paranoá (Oswaldo Montenegro, José Alexandre e Mongol)

 Manhê, êh mãe

 A coisa é como a gente combinou, mas voltei
 É complicada
 Madá manda me buscar
 Manhê, êh mãe
 Gostei de ser estrela, mas cansei de brincar
 Submarino volta pro Paranoá
 Estou levando o Mongol e toda clave de sol
 Lembra mulher grávida
 Minha cabeça ta grávida, ávida para inventar
 E Madalena também tomou esse trem
 Veja você, Brasília
 Cantei Bandolins, mas sempre pensando em voltar
 Manhê, êh mãe
 A lúcida visão do que se quer fica atrás
 Da doida brincadeira
 Hoje eu quero é mais
 Manhê, êh mãe
 O Zé gravou um disco e ainda é bom rapaz
 E cada sonho eu ponho onde não cabe mais 

6- Astrologia (Mário Quintana e Lui Coimbra)

                    Minha estrela não é a de Belém

Aqui parada guarda o peregrino

Sem importar-se com qualquer destino

A minha estrela vai seguindo além.

Meu Deus, o que é que esse menino tem?

Já suspeitavam desde eu pequenino,

O que eu tenho, o que tenho é uma estrela em desatino

E nos desentendemos muito bem.

7- “Verde” (De: Oswaldo Montenegro e Mongol)

                            Verde, verde, folha desabada 

Doida cor sem ter qualquer razão de ser 
Mágica das coisas, das verdes coisas 
Dos olhos verdes de quem vê 

Hortelã dos chás, dos beijos verdes 
Doida flor sem ter qualquer razão de ser 
Lógica das coisas, das novas coisas 
Dos olhos verdes de quem vê 

Doce maçã da saúde e água 
Doido amor sem ter qualquer razão de ser 
Ávida das moças, das novas moças 
Dos olhos verdes de quem vê 

Como rã saltando é  folha verde 
Doido acordo tem qualquer razão de ser 
Plástica dos olhos, dos verdes olhos 
Dos olhos verdes de quem vê 

Doce maçã da saúde e água 
Doido amor sem ter qualquer razão de ser 
Ávida das moças, das novas moças 
Dos olhos verdes de quem vê 

Texto: Ilha (Oswaldo Montenegro)

 

Ilha não é só  um pedaço de terra cercado de água por tudo quanto é lado.

Ilha é qualquer coisa que se desprendeu de qualquer continente.

Por exemplo: um garoto tímido, abandonado pelos amigos no recreio, é uma ilha.

Um velho que esperou a visita dos netos no Natal

e não apareceu ninguém, é uma ilha.

Tudo na gente que não morreu, cercado por tudo que mataram, é uma ilha.

Até a lágrima é  uma ilha, deslizando no oceano da cara.

8- Oxum” (Oswaldo Montenegro)

                           Quando os meninos do Brasil

Olharem pro Brasil com medo do quem vem depois

Oxum, olhai por nós!

Oxum, olhai por nós!

Quando os meninos do Brasil

Olharem pro Brasil e aí soltarem sua voz

Oxum, olhai por nós!

                           Oxum, olhai por nós!

9- Sobradinho (De: Sá e Guarabyra)

                    O homem chega e já desfaz a natureza

Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar
O São Francisco lá pra cima da Bahia
Diz que dia menos dia vai subir bem devagar
E passo a passo vai cumprindo a profecia do beato   

Que dizia que o sertão ia alagar
O sertão vai virar mar, dá no coração
O medo que algum dia o mar também vire sertão           

Vai virar mar, dá no coração
O medo que algum dia o mar também vire sertão

 

Adeus Remanso, Casa Nova, Sento-Sé
Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir
Debaixo d'água lá se vai a vida inteira
Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir
Vai ter barragem no salto do Sobradinho
E o povo vai-se embora com medo de se afogar
Remanso, Casa Nova, Sento-Sé
Pilão Arcado, Sobradinho
Adeus, Adeus ...

10- “Paço do Rosário” (Oswaldo Montenegro)

                    Eh, beira de rio                                                                              

Paço do Rosário se avista ao longe
As ruas tortas vão se desenhando pelo arraial
Eh, beira de rio                                                                                        

Paço do Rosário limitando o agreste
Sua janela, sua velha doca de barrica e pau
Eh, água barrenta rolando sem pressa, consumindo a terra
O pôr-do-sol avermelhando Paço do Rosário
Eh, na velha igreja já são seis da tarde
O povo reza o terço                                                                              

Ave Maria! Mãe do céu! Cruz credo!
Quem me mata é Deus...
Eh, murmúrio lento                                                                           

Como prece aflita, vai descendo o rio
Acompanhando o dia que se vai, buscando o anoitecer
E anoitecendo, Paço do Rosário quase silencia
A velha estátua caída na praça, mais um dia
Eh, velha rameira deixa a vela acesa por Virgem Maria
Ave Maria! Mãe do céu! Cruz credo!
Quem me mata é Deus

11- “País da Mistura” (Oswaldo Montenegro)

                    Dentro da selva uma estrela

Na Pindorama reluz

Computador no quilombo

Cristo liberto da cruz

 

Canta o país da mistura

Reza nação pela paz

Som de atabaques na noite

Barcos libertos do cais

 

Viva o país vira lata

Trem futurista do amor

DNA de mulata

Caleidoscópio de cor

 

Dança Tupã com São Jorge

Dança Iansã com Oxalá

Dança Ogum com o Rabino

Dança o ateu com Alá

 

O presidente requebra

O padre dança na rua

O namorado assovia

Doido olhando pra lua

 

Tropicalismo de festa

Lógica de carnaval

Olha pro mundo e empresta

Sua alegria total

12- “Goyarece Mulungo” – (Oswaldo Montenegro)

                    E quem não tem amor do lado

Não é de lugar nenhum
Oi, não é de lugar nenhum, (vira poeira)
Não é de lugar nenhum (vira poeira)

E quem vai ser abençoado
Hoje é Logum Edé e Ogum
Hoje é Logum Edé e Ogum (vira poeira)  

Hoje é Logum Edé e Ogum (vira poeira)

Olha o perfume do passado
No gingado de Olodum
Ó no gingado do Olodum (vira poeira)
No gingado de Olodum (vira poeira)

Quem não tem amor do lado
Não é de lugar nenhum
Oi, não é de lugar nenhum (vira poeira)
Não é de lugar nenhum (vira poeira)

A moça estranha do sobrado
Põe feitiço em qualquer um
Oi, põe feitiço em qualquer um (vira poeira)
Põe feitiço em qualquer um (vira poeira)

O viajante aqui do lado
Tá calado ele é de Oxum
Oi, ta calado ele é de Oxum, (vira poeira)
Oi, ta calado ele é de Oxum (vira poeira)

E misturou, tá misturado
Inté romã com girimum
Até romã com girimum (vira poeira)                  

Até romã com girimum (vira poeira)

E o que nasceu tá condenado
Até o homem incomum
Até o homem incomum, (vira poeira)

1- Tchucarramãe (“Nação Primeira") (Ulysses Machado)

                     Beijo na na

Beijo na nação pri

Beijo na nação primeira

Tchucarramãe nossa

 

Mãe nossa trouxe um índio novo

Numa estrela colorida

E brilhante que brilha

Mãe nossa fez de novo

I Juca Pirama gritar

Carne de branco é salgada

Mas a gente gosta

Bodoques, enxadas e flechas

Pirão de farinha

 

Mãe nossa deu apito

Agora a gente apita e grita

Cem quilômetros de terra

Crao, Xerente, Yanomami

Apinajé, Carajá

A gente corta a cabeleira

E grita e pula e canta

Mãe nossa fez da vida inteira

Um pula-e-grita-e-canta